domingo, 16 de outubro de 2011

UM MENINO E SEU SONHO

Era um menino de uns onze anos. Cabelos loiros. Olhos e espírito inquietos. Percorria os espaços de brincadeiras e jogos, naqueles finais dos anos 60, com desenvoltura e liberdade. Na rua, era um moleque como os outros. Em casa, era quase difícil: arrumava formas sempre novas de zombar das irmãs, lia em voz alta (em tom de deboche) as cartas que o pai, enamorado, escrevera para a mãe, se recusava a fazer tarefas e trabalhos escolares, fugia dos castigos...
Havia nesse menino, porém, uma ternura insuspeita: amava os animais. O quintal da pequena casa onde morava com seus pais e irmãs já recebera galinhas (e um galinheiro inteiro!), codornas, coelhos, patos, passarinhos, gato e cachorro. O menino rebelde era doce e suave no cuidado com os animais.
Um período do ano, em especial, o transformava: vésperas do Dia de São Benedito. Em homenagem ao santo, a Cavalaria de São Benedito desfilava por toda a cidade: um grande cortejo de cavalos e cavaleiros. Nos dias anteriores à festa, cavalos eram trazidos dos sítios e fazendas vizinhos e, amarrados nos postes e portões, eram lavados, escovados, cuidados, tratados até estarem prontos a compor o cortejo.
O menino vibrava: se oferecia para escovar os cavalos, recolhia água em baldes para dar-lhes de beber, auxiliava cavaleiros a posicionar arreios e rédeas... Por vezes, conseguia, com esses favores, a concessão de uma volta sobre os animais, tão queridos por ele.
Naquele ano, assim que a Cavalaria terminou de passar pela rua de sua casa, o menino tomou uma decisão: seria também um cavaleiro de São Benedito. Pergunta daqui, indaga dali, descobriu: precisaria de calça, camisa, sapato e quepe brancos. Uma taxa para receber a fita verde-amarela que usaria atravessada no peito – marca dos cavaleiros de São Benedito.
O menino pediu dinheiro ao pai que,  por conta dos escassos recursos da família, ou por querer ensinar alguma coisa ao filho, negou.
Dias depois, ouviram-se no quintal barulhos ininterruptos de serra e martelo trabalhando a madeira. Algumas tardes de trabalho e lá estava: uma caixa de engraxate, das mais bonitas que já se viu. A imagem do menino engraxando sapatos foi um tanto constrangedora. A família era pobre, mas engraxar sapatos na rua era atividade para pessoas ainda mais pobres, quase miseráveis, aqueles que precisavam que seus filhos trabalhassem para ajudar em casa. Mas, o menino queria o dinheiro para ser cavaleiro... e foi engraxar sapatos. Durante um ano inteiro, lá foi ele... caixa nas costas, para a praça principal da cidade, em busca de sapatos para lustrar. Ao final do dia, depositava os trocados num envelope, que guardava sob as roupas na gaveta da cômoda.
Comprou a calça branca, o quepe e os tênis.  A camisa, a mãe costurou, a partir do tecido que ele também comprou. Semanas antes da festa, pagou a taxa e recebeu as fitas de cavaleiro de São Benedito. O cavalo emprestou do tio... um belo e alto alazão, não muito manso.
No dia da cavalaria, não havia menino mais belo que ele... Empertigado sobre o cavalo, orgulhoso de ter conseguido, com seu próprio esforço, desfilar, uniformizado, por toda a cidade.
Nem vamos mencionar o cansaço que tomou conta dele depois da cavalaria e a promessa de que nunca mais seria um cavaleiro.
Vamos mencionar o quanto eu, sua irmã (então) caçula, admirei aquele menino com ares de homem, sobre o cavalo. Admirei-o e aprendi que todo trabalho é digno e que podemos ser o que sonhamos.
Eliana Maciel

domingo, 2 de outubro de 2011

Vinte anos, segredos e milagres

Eu estava com 20 ou 21 anos. Namorava um moço que conheci num baile de Carnaval. Ele era belo: moreno, alto, bem magro, bigodes sedosos e olhar profundo. O sorriso não era comum, mas, quando surgia, iluminava um rosto levemente marcado pela tristeza.  Nós nos dávamos bem: ele era gentil e tranquilo. Aos poucos, o apresentei à minha família, e todos gostavam dele. Minha mãe, especialmente.
Este “príncipe”, porém, tinha um “defeito” (aqueles tempos...): era separado, com duas filhas pequenas. Quando minha mãe soube, ficou muito brava. Toda a conversa de “moço bom” foi por água abaixo. Proibiu-me o namoro. Ah!... quando temos 20 anos! Nada pode nos deixar mais apaixonados que um amor proibido. Encontrávamo-nos aos finais de semana, quase às escondidas. Fiz boa amizade com suas pequenas meninas. Chegamos a viajar juntos, e eu gostava de cuidar delas... e sentia que elas gostavam de estar comigo.
No começo de uma noite de sábado, eu o aguardava... havíamos combinado: ele traria as filhas e me telefonaria, dizendo o local onde nos encontraríamos. Era verão e uma tempestade estava terminando... Eu aguardava a ligação na varanda de casa, observando os pingos do final da chuva e a movimentação da rua. Em frente à casa, a ladeira da Rua Vigário Martiniano estava às escuras... efeito da tempestade. Em um momento, olhei no alto da ladeira e vi um carro - o farol muito alto - parar por um momento, e depois descer a rua, a toda velocidade. Reconheci o carro do meu namorado e não entendi... por que ele não havia ligado? Por que aquela reação intempestiva? Não combinava com o que conhecia dele...
Poucos minutos depois, as vi... as meninas... descendo a ladeira escura, sob a chuva, de mãos dadas, chorando. Nem pensei em entender... desci as escadas, abri a porta, atravessei a rua e fui ampará-las. Elas não conseguiam dizer o que havia acontecido, tanto choravam. Levei-as para casa e, ajudada por minha mãe, oferecemos água com açúcar e carinho para elas. O pai delas ligou. Eu não podia dizer nada, somente que as meninas estavam ali comigo, como por milagre. Ele tomou um táxi e chegou em casa em poucos minutos.
A situação foi esclarecida: ele havia parado na Rodoviária para ligar para mim (tempos sem celular!), deixou as meninas no carro e se esqueceu de tirar as chaves do contato. Em um segundo,  um homem adentrou o carro e o levou... junto com as meninas. Elas contaram que começaram a chorar, chamando pelo pai... e o tal homem disse que logo, logo, elas o encontrariam... que ele iria só levar o carro. E as deixou ali, sob meus olhos.
Depois disso, todos souberam que o namoro continuava e nos deixaram em paz. Namoramos mais um tempo até que houve um rápido e definitivo adeus. Soube, há alguns anos, que ele faleceu, ainda jovem...
Durante muito tempo, pouco vi as meninas... mas nunca as esqueci, nem elas a mim... Hoje são mulheres, belas mulheres... sinto um carinho especial por elas... como se, num momento muito importante, meus olhos e mãos foram chamados para protegê-las. E eu obedeci.
Alguém duvida da existência de milagres?
A estas meninas/mulheres, todo meu carinho...
Eliana Maciel



Licença-prêmio e o Grande Sertão

Terminaram os quinze dias de licença-prêmio que havia tirado... Amanhã volto ao trabalho em período integral. O que fiz nestes dias quinze dias? Os planos eram muitos, mas, logo, logo, deixei tudo para lá e procurei somente “estar”. Viver o que o momento traz... óbvio que precisei continuar os outros trabalhos, o cuidado comigo, com os filhos e com a casa...  fora isso... vi filmes e li... muitos livros.
Costumo fazer uma brincadeira: conto aos amigos que, quando eu nasci, meus pais não sabiam que nome me dariam e resolveram esperar para ver o nome brotar... Quando comecei a ler, eles souberam o nome que me dariam...  eu pegava um livro e lia... e lia na sala, e lia na cama, e lia na poltrona, e lia na rede... e lia na... Eliana.
A leitura é um dos fortes fios condutores da minha vida. Nestes dias de (quase) descanso, recorri à ampla biblioteca do meu amor... trouxe de lá uma alta pilha de livros, que dispus em meu criado-mudo e vibro à medida em que vejo a pilha se reduzir ao ritmo da minha leitura encantada.
Aos poucos, comentarei as obras que li. A primeira provocou-me especial alegria: trata-se de uma edição especial em comemoração aos 50 anos de publicação de Grande Sertão: Veredas, do maravilhoso Guimarães Rosa. O livro em si já havia lido e relido, à época do Curso de Letras... este, agora, descreve, com palavras e fotos, a instalação homônima ao livro concebida por Bia Lessa para a inauguração do Museu da Língua Portuguesa, em março de 2006. A concepção da instalação, os caminhos percorridos pelos visitantes, as folhas dos originais do Grande Sertão, revelando o esmero de Guimarães Rosa com seu texto... o sertão visto, ouvido, saboreado, sentido... mais que a instalação, o pequeno livro trouxe de volta o mundo mítico do nosso universal Grande Sertão:Veredas.
Para vocês, alguns fragmentos, citados no livro.
“Diadorim é a minha neblina...”
“Relembro Diadorim. Minha mulher que não me ouça. Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.”
“Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...”
“Despedir dá febre.”
“(...) no viver tudo cabe.”
“Viver... O senhor já sabe: viver é etcétera...”
“Homem foi feito para o sozinho?”
“A liberdade é assim, movimentação.”
“A gente só sabe bem aquilo que não entende.”
“O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.”
“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”
“Viver é um descuido prosseguido.”
“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.”
- “Sorte é isto. Merecer e ter...”
“Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!”
“Somente com alegria é que a gente realiza bem – mesmo até as tristes ações.”
“Perto de muita água, tudo é feliz.”
“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto:               que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.”


domingo, 25 de setembro de 2011

Contos de menina...

Meus amigos Leda e Jocely têm dois belos filhos: Lívia e Miguel. São crianças educadas com carinho e cuidado. Gosto de observar o quanto são inocentes: lembram-me as crianças de quando eu era menina... Após o lançamento de "Menina dos Olhos", a Lívia disse para a mãe que havia descoberto sua profissão. Com toda certeza dos seus dez anos, anunciou que seria escritora. E começou a escrever histórias e mais histórias. Muitas, inclusive, ela própria ilustra, utilizando o computador. Lívia constrói novos contos de fadas, diferentes dos tradicionais, como ela mesma comenta. Lívia tem ótimo vocabulário e suas palavras nos levam a imaginar as cenas que descreve. Lívia bem que merece publicar um livro...

Com vocês, a pequena-grande escritora, Lívia Jane...

Carta ao leitor
Todos esses séculos os contos de fada sempre foram assim: madrasta ruim, pai viúvo, mãe morre doente, princesinha maltratada pela madrasta e príncipe encantado. Mas as minhas histórias são diferentes...
As três árvores
Era uma vez uma garota chamada Ester que morava com seus cinco irmãos homens: Daniel, Gabriel, Joel, Samuel e Marcel.  Ela era a única menina da família, porém, era a mais velha. Um lindo dia, combinaram que iriam visitar os avós no final de semana. Seus avós, ninguém sabe por que, moravam na floresta.
                Ester mandou Daniel pegar três tipos de frutas diferentes para levarem para os avós. Daniel estava procurando os frutos de que mais gostava e encontrou-os em três árvores belas e carregadas que ficavam no alto de um morrinho. Daniel, ao enxergar as árvores, começou a salivar, esqueceu do que deveria fazer e comeu os frutos de uma vez só. Na última árvore ele nem subiu, pois estava com a barriga cheia.
                 Voltou para casa sem saber de nada e sua irmã chamou sua atenção. Mas, como só iriam visitar os avós no fim de semana, ela não ficou tão nervosa. No outro dia, Ester mandou Gabriel fazer o que o irmão não tinha feito. Por coincidência, ele encontrou as três árvores que o irmão tinha achado. Aconteceu a mesma coisa e a irmã também chamou sua atenção. No outro dia, ela mandou Joel fazer a mesma coisa e não aconteceu diferente. Ester mandou depois Samuel e aconteceu tudo igual. No dia seguinte ela mandou Marcel e disse que não aceitaria desculpas.
                 Marcel era o mais inteligente de todos os cinco meninos, só não era mais que a irmã por ser o mais novo dos filhos. Ela já viu quase todo tipo de coisa, por isso ele era o segundo mais inteligente. 
  Marcel mergulhou um pano em molho de pimenta que fervia e queimava suas mãos, e colocou-o amarrado na boca, assim não comeria nada, pois, se tentasse tirar o pano, se queimaria e se abrisse sua boca engoliria pimenta. Encontrou as três árvores das desculpas dos seus irmãos e pegou tudo o que tinha a pegar, mas achou uma matilha de lobos a sua frente. Marcel correu e entrou em casa. A irmã viu tudo o que tinha acontecido e se orgulhou de Marcel, mas se desapontou e pediu desculpas aos irmãos, que tinham falado a verdade. Assim, visitaram os avós e tudo correu bem daquele dia em diante.

Ass.: Lívia Jane

SENHORA DA VIDA

No final de uma tarde de setembro, fui visitar uma senhora de 87 anos... Quem imagina que a conversa girou em torno de lamentos e dores e tristezas se enganou. A “velhinha” que fui visitar encontrava-se perfeitamente trajada (roupas confeccionadas, em sua maioria, por ela mesma), de unhas feitas e vistosos brincos e anéis. Contou todas as suas peripécias de idosa com risos e mais risos... suas limitações foram tema de piadas e motivo para as gargalhadas...
Esta “senhora” é minha sogra, Dona Nilza. Dizem que sogra não é “ex”, que sogra é para sempre... que bom! Dona Nilza é mesmo para sempre em meu coração. Mulher corajosa,  criou os sete filhos com generosidade e alegria. Uma artista que ousa ser feliz com o que tem, sem grandes ambições, sem grandes expectativas. Para ela, bastam o tempo, os parentes, os amigos, uma boa conversa, a alegria. Toda a vida vivida a cada dia, desfrutando do prazer de existir.
A ela não devo nada, nem ela a mim. Estivemos mais próximas durante bastante tempo... agora, quando posso, a visito, junto com meus filhos, somente pelo prazer de sua companhia... Somos mulheres de gerações diferentes, quarenta anos nos separam, mas, temos em comum a luta pelo bem-estar dos filhos que geramos. Não ficou entre nós nenhuma rusga dos tempos difíceis... entendemos que cada uma ofereceu a outra o que podia, dadas todas as circunstâncias...
Estar com Dona Nilza é, a todo segundo, celebrar a vida. Obrigada, querida amiga.
NILZA
Idade de senhora, vitalidade de menina.
Mãos de fada no prato,
                                   no pano,
                                               no pincel.
Amor incondicional aos que lhe vieram da carne
e aos que lhe traz a alma.
Símbolo de doação...
Mãos abertas ao próximo,
mãe espiritual de muitos.
Aos justos, pede conciliação,
aos injustos, oferece terno – e eterno – perdão.
Mulher da Nova Era...
Amiga, querida, artista,
maga, irmã, rainha,
nossa bússola de navegação...