domingo, 24 de abril de 2011

CASA LIMPA

Para encerrar um ciclo: perda - passagem - Páscoa - nova vida.

                            CASA LIMPA
                        Reguei meu vaso de violeta.
                        Limpei dos móveis a poeira.
                        Abri as janelas para o sol...

                        Esfreguei minhas roupas
                        e coloquei-as nos varais.
                        Varri minhas calçadas...

                        Cozinhei uma leve refeição,
                        comi-a com prazer
                        e guardei, limpos, os pratos...

                        Estendi minha cama.
                        Bati meus tapetes e cobertores.
                        Revi meus livros e discos...

                        Coloquei flores nos vasos.
                        Banhei-me, me vesti,
                        e perfumei-me um pouco...

                        Sentei-me no silêncio...
                        Tirei do baú minha flauta
                        e soprei nela
                        a música do esquecimento.

Eliana Maciel

ESTOU LENDO...

Estou lendo "MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar. Trata-se de uma nova visita. Há muitos anos, tentei ler este livro. Não consegui. A temática me pareceu estranha, as palavras não encontraram eco em meu ser. Acabei por fechar o livro e adiar sua leitura. Confesso que, por muitas vezes, o via diante de mim. Sabia que haveria de reencontrá-lo como se espera reencontrar um amor mal resolvido.
Agora, o retomei. E encontro nele, a cada linha, uma grata surpresa. Trata-se de uma autobiografia ficcional da vida do Imperador romano Adriano, contada em forma de carta ao seu filho adotivo e futuro Imperador Marco Aurélio. A escritora belga Marguerite Yourcenar trata o texto com refinamento e equilíbrio: as memórias de um Imperador velho e doente não nos inspira pena. Ao contrário, nos leva a refletir sobre os aspectos da nossa vida e da vida em si. Um livro para uma leitura atenta, quieta, reflexiva. Enfim, posso apreciar, na maturidade, o que a juventude não me permitiu. Eis um dos presentes que o tempo nos oferece.



Ainda sobre perdas

Belíssima contribuição do amigo Walter Addeo:

UMA ARTE


A arte de perder não é difícil de aprender;
Tantas coisas parecem feitas com o molde da perda
Que o perdê-las não traz nenhum desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
De perder chaves, e a hora passada à toa.
A arte de perder não é difícil de aprender.

Pratica perder mais rápido, mil coisas mais:
Lugares, nomes, onde pensaste ir de férias.
Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. E veja! a última
Ou a penúltima de minhas casas queridas, foi-se.
A arte de perder não é difícil de aprender.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E, pior,
Alguns reinos que tive, dois rios, um continente.
Sinto sua falta, mas não é nenhum desastre.

Mesmo perder-te a ti - a voz que ria, o gesto
Que eu amava – mentir não posso. É evidente:
A arte de perder muito não é tão difícil de aprender
Embora a perda – anote isto – pareça um desastre.


ELIZABETH BISHOP

domingo, 17 de abril de 2011

PERDER

No último dia 15, sexta-feira, fez 14 anos que perdi meu pai. Quem perdeu alguém querido sabe: a dor permanece, a saudade aumenta, o tempo cuida de que possamos continuar a viver... Mas, as datas trazem a lembrança e a tristeza chega, mansa e contínua. Uma perda lembra outras... 
Transcrevo aqui um trecho do belo livro "Perdas Necessárias", de Judith Viorst. Longe de ser um livro pessimista, nos ensina a encarar as perdas como degraus para o amadurecimento e a vida plena. 

"Um tanto enrugada, altamente vulnerável e definitivamente mortal, examinei essas perdas. Essas perdas de uma vida inteira. Essas perdas necessárias. As perdas que enfrentamos quando nos vemos face a face com o fato do qual não podemos fugir:
que nossa mãe vai nos deixar, e que nós vamos deixá-la;
que o amor de nossa mãe jamais será só nosso;
que as dores que nos machucam nem sempre desaparecem com um beijo;
que estamos no mundo essencialmente por nossa conta;
que, por mais sábia, bela e encantadora que seja, nenhuma garota pode se casar com o pai quando crescer;
que nossas opções são limitadas pela anatomia e pela culpa;
que há falhas em qualquer relacionamento humano;
que nosso status  neste planeta é implacavelmente efêmero;
e que somos completamente incapazes de oferecer a nós mesmos ou aos que amamos qualquer forma de proteção - proteção contra o perigo e contra a dor, contra as marcas do tempo, contra a velhice, contra a morte, proteção contra nossas perdas necessárias.
Essas perdas são parte da vida - universais, inevitáveis, inexoráveis. E essas perdas são necessárias porque para crescer temos de perder, abandonar e desistir."



Para todos, uma boa semana. Com boas perspectivas de descanso, lazer e ganhos.