domingo, 21 de agosto de 2011

Decifrando enigmas...

Na semana passada assisti pela segunda vez a um filme muito interessante. Não é um filme novo, foi lançado em 1993. O título, traduzido, é "O Enigma das Cartas". A história gira em torno de uma família cujo pai faleceu em uma escavação arqueológica. A mãe não aceita a morte do marido e tem dificuldade em enfrentar a vida com os dois filhos, um menino e uma menina. A pequena começa a apresentar sintomas típicos de autismo, se afastando cada vez mais da vida cotidiana. A mãe, então, inicia um movimento de (re)encontrar a filha. Há cenas surpreendentes, tocantes, emocionantes. A interprertação da menina é excelente. Para pensar sobre: construir laços familiares, assumir responsabilidades, enfrentar perdas, chorar as lágrimas todas, vivenciar o luto e a perda, renovar-se, encontrar verdadeiramente o outro. Vale a pena!



domingo, 14 de agosto de 2011

Fiquei sabendo...

... que o edifício que está sendo construído no terreno onde viviam as jabuticabeiras (vide postagem "O Elefante e as Jabuticabeiras") terá como nome elas mesmas, "Jabuticabeiras".
... que a professorinha que me ensinou a ler, oferecendo-me o "livro mais bonito da biblioteca" (vide postagem "Saboroso Engodo") chama-se Dulce, está com quase noventa anos, é ativa e lúcida... acho que vou procurá-la.

Era uma vez...

ERA UMA VEZ

Era uma vez
uma mulher
que via
um futuro
grandioso
para cada homem
que a tocava.

Um dia
Ela se tocou.

Alice Ruiz





Pai Saudade

Fim de domingo. Domindo dos pais. Data estranha para quem já se despediu do seu pai, há muitos anos. Fica-se entre a saudade e a alegria de ver os outros comemorando... Entre a tristeza assentada como chão de terra depois de molhada e a vontade eterna de abraçar o homem que se foi...
No silêncio de minha casa, busquei alguns escritos antigos. Dentre deles, encontrei um texto singelo, que escrevi em 1988, aos 24 anos, poucos dias antes de me casar. Relata, com a parcialidade de uma filha amorosa, um momento dos anos compartilhados com meu pai. Vejam:
MEDOS RURAIS
                               - Estou falante hoje! Avisa meu pai já nas primeiras horas da manhã. E passa o dia a conversar com quem encontra e, quando não encontra, deve – suposição minha – conversar consigo mesmo.  Nesses dias de falatório, as conversas preferidas são as lembranças do passado  de sua família no campo, vivendo as belezas e os problemas de cultivar a terra.
                               Hoje, principalmente, meu pai falou sobre as “histórias de assombração”, que provocam muitos pesadelos e inseguranças, mas trazem também muita atração e excitação.
                               Ouço-o falar sobre vários episódios que aconteceram com ele próprio e com outros. Conta casos como o da mão branca que apareceu na soleira da porta, da pedrinha que rolava no telhado, do armário cuja porta se ouvia abrir e deixar cair toda a louça no chão (quando verificado, estava tudo intacto e o armário de portas fechadas), com alegria e sentimento de partilha.
                               Já ouvi essas histórias umas oitenta vezes, mas nunca me canso, pois, a cada vez, meu pai acrescenta um detalhe que modifica e ilustra a história. Mais que o enredo dos “causos”, a voz do meu pai é contagiante. Ele vibra com cada palavra e nos leva ao momento dos acontecimentos.
                            Nosso passado é apenas lembrado; somos a geração que ouviu contar e não viveu. A decadência da sociedade rural levou-nos para a cidade, onde os medos são outros, mais reais e menos criativos que os rurais.
                               Que pena! Nunca ouvi meu pai contar suas histórias sentada num fogão “de” lenha ou num terreiro de café. Pai, você é um contador de histórias maravilhoso, pois nos remete ao cheiro do mato, do café, da fogueira e, principalmente, ao fundo do seu coração.
Eliana Maciel
Tomara que o domingo tenha sido feliz para todos os pais – onde quer que eles estejam.
Sugiro o link: http://www.youtube.com/watch?v=TwVU_7SSdBI   , em que o talentoso sambista Diogo Nogueira faz uma homenagem emocionante ao pai, Paulinho Nogueira. Inesquecível!

domingo, 7 de agosto de 2011

A VIDA É TÃO CURTA... CURTA...

Terminei de ler um belo – e triste – livro: “Vita Brevis”, do Jostein Gaarder. Trata-se de uma carta, supostamente escrita por Flória Emília, ex-companheira de Aurel, Aurélio Agostinho, bispo da Igreja Católica que se tornaria Santo Agostinho. Eles viveram juntos por 12 anos e tiveram um filho, Adeodato, cujo nome significa presente de Deus.
Flória, após ser abandonada por Aurel e de ter seu filho arrancado de sua companhia, dedicou-se a estudar Filosofia e Teologia a fim de compreender os motivos que levaram Aurel a deixá-la. A carta é um profundo desabafo, o lamento de uma mulher abandonada e traída, não por outra mulher, mas pelo mundo das ideias. Flória torna-se sábia o bastante para debater as ideias de Agostinho em suas famosas “Confissões”. E, mais que isso, as palavras de Flória são um diálogo entre o mundo sensível, palpável, e o mundo filosófico; entre o mundo dos sentidos e a perspectiva de que, longe dele, a alma estará salva (segundo Agostinho). Flória torna-se filósofa, mas, acima, antes e além de tudo, é uma mulher, que vibra com as lembranças do amor e do prazer advindos de sua relação com Aurel. É inevitável durante a leitura adotarmos o ponto-de-vista de Flória e até sentirmos certa raiva de Aurel.  
Lembrei-me do livro hoje pela manhã, quando perguntei ao meu amor o que poderia significar o sonho que tive: uma pequena ilha suavemente desaparecendo, coberta pelo mar. Ele  respondeu: “significa um sonho em que uma pequena ilha suavemente desaparece, coberta pelo mar. O que mais poderia significar?”  Satisfeito, puxou-me para junto de si e beijou meus cabelos. E não houve sonho, ilha, mar ou livro que sobrevivessem àquele momento.
 Pobre Aurel...  
Leiam um trecho:
“(...) Então chegamos à velha praça-forte de Florentia, junto ao rio Arno. És capaz de lembrar como ficamos ali, apontando para as montanhas nevadas que se revelaram subitamente através das árvores? Lembras apenas idéias, Aurel, não podes tentar relembrar algumas experiências sensíveis reais também? Logo atravessamos o rio, e foi enquanto estávamos na ponte que te aproximaste de mim por trás. Conversavas com alguns homens, mas de repente estavas ao meu lado. Senti tua mão em meu ombro e então puxaste-me gentilmente para perto de ti e sussurraste: “ A vida é tão curta, Flória!
Então pegaste meu pulso e seguraste-o apertado – como se tivesses decidido que se tratava de um momento que não querias esquecer. Foi quando perguntaste se podias cheirar meus cabelos. E assim o fizeste. Senti tua respiração em meu pescoço enquanto desembaraçavas meus longos cabelos e aspiravas seu perfume. Era como se quisesses sugar-me inteira para dentro de ti como se meu lar fosse dentro de ti. Parecia que querias expressar algo sobre como eu sempre te pertenceria, porque nossas almas se tinham fundido.”
“A vida é tão curta...”