domingo, 8 de maio de 2011

Mãe e Maternidade

Muito se diz sobre ser mãe. Entre o clássico “padecer no paraíso” e o trágico “desfiar fibra por fibra o coração”, a maternidade inspira pensamentos, poemas, músicas, frases feitas. Mãe de dois grandes meninos, nunca confiei nestes ditos que endeusam a mãe e revelam a maternidade como sublime, fora da realidade humana. A maternidade vista como suprema abnegação e doação. Isso é apenas uma parte da história. Mães são seres humanos e, embora quase nunca assumam, também perdem a linha, se irritam, erram, jogam, manipulam. As mães dedicadas, sensíveis e inteligentes se beneficiam da maternidade: fonte quase inesgotável de carinho e conforto, experiência humana ímpar no aprendizado da tolerância e da aceitação, imersão no universo dinâmico das novas gerações. Sim, ser mãe tem suas vantagens – e não são poucas.
Por isso, gosto muito de um texto que li há muito tempo, num livro intitulado – por incrível que pareça – A Madrasta, de Nancy Thayer. Pode não ser a mais bela definição de mãe, mas, por certo, para mim, é a mais verdadeira. Leiam:

(Meus filhos) “Eles me ligaram a alguma coisa profunda, ampla, selvagem e boa deste mundo. Ao nascerem, deram-me um conhecimento grande e chocante de minha capacidade para comer capim, para dançar nas árvores, para cair de telhados e dissolver-me em cintilantes moléculas de neve. Com a chegada deles, fiquei sabendo que estava agarrando a morte, rasgando-a pelo meio e espantando-a de vez com meu sangue quente e orgulhoso. (...) continuarei a atravessar esta vida com meus filhos como se estivesse atravessando um panelão de chocolate quente, pegajoso e doce. Esse chocolate me atrapalha, me detém, muitas vezes me irrita, mas continuo aqui, feliz, nesse mingau quente e grosso, lambendo o doce de meus dedos e braços e de minha barriga.”

Parabéns e abraços... de mãe para mães.

Eliana Maciel

domingo, 24 de abril de 2011

CASA LIMPA

Para encerrar um ciclo: perda - passagem - Páscoa - nova vida.

                            CASA LIMPA
                        Reguei meu vaso de violeta.
                        Limpei dos móveis a poeira.
                        Abri as janelas para o sol...

                        Esfreguei minhas roupas
                        e coloquei-as nos varais.
                        Varri minhas calçadas...

                        Cozinhei uma leve refeição,
                        comi-a com prazer
                        e guardei, limpos, os pratos...

                        Estendi minha cama.
                        Bati meus tapetes e cobertores.
                        Revi meus livros e discos...

                        Coloquei flores nos vasos.
                        Banhei-me, me vesti,
                        e perfumei-me um pouco...

                        Sentei-me no silêncio...
                        Tirei do baú minha flauta
                        e soprei nela
                        a música do esquecimento.

Eliana Maciel

ESTOU LENDO...

Estou lendo "MEMÓRIAS DE ADRIANO", de Marguerite Yourcenar. Trata-se de uma nova visita. Há muitos anos, tentei ler este livro. Não consegui. A temática me pareceu estranha, as palavras não encontraram eco em meu ser. Acabei por fechar o livro e adiar sua leitura. Confesso que, por muitas vezes, o via diante de mim. Sabia que haveria de reencontrá-lo como se espera reencontrar um amor mal resolvido.
Agora, o retomei. E encontro nele, a cada linha, uma grata surpresa. Trata-se de uma autobiografia ficcional da vida do Imperador romano Adriano, contada em forma de carta ao seu filho adotivo e futuro Imperador Marco Aurélio. A escritora belga Marguerite Yourcenar trata o texto com refinamento e equilíbrio: as memórias de um Imperador velho e doente não nos inspira pena. Ao contrário, nos leva a refletir sobre os aspectos da nossa vida e da vida em si. Um livro para uma leitura atenta, quieta, reflexiva. Enfim, posso apreciar, na maturidade, o que a juventude não me permitiu. Eis um dos presentes que o tempo nos oferece.



Ainda sobre perdas

Belíssima contribuição do amigo Walter Addeo:

UMA ARTE


A arte de perder não é difícil de aprender;
Tantas coisas parecem feitas com o molde da perda
Que o perdê-las não traz nenhum desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
De perder chaves, e a hora passada à toa.
A arte de perder não é difícil de aprender.

Pratica perder mais rápido, mil coisas mais:
Lugares, nomes, onde pensaste ir de férias.
Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. E veja! a última
Ou a penúltima de minhas casas queridas, foi-se.
A arte de perder não é difícil de aprender.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E, pior,
Alguns reinos que tive, dois rios, um continente.
Sinto sua falta, mas não é nenhum desastre.

Mesmo perder-te a ti - a voz que ria, o gesto
Que eu amava – mentir não posso. É evidente:
A arte de perder muito não é tão difícil de aprender
Embora a perda – anote isto – pareça um desastre.


ELIZABETH BISHOP