domingo, 3 de abril de 2011

Fábio, o poeta

Um dia, meu amigo Walter Addeo me apresentou a um poeta. Apresentou-me a ele por meio de um poema, "Voo Nupcial", que podem ler abaixo. Pediu-me que fizesse um comentário sobre o poema. Não foi difícil. Desde então, eu e o Fábio quisemos nos conhecer pessoalmente. Ele nasceu aqui, em Guaratinguetá, mas vive e trabalha em Goiás. Foi um tanto difícil nos encontrarmos. Por fim, numa tarde radiosa de janeiro, fomos até sua casa, na estrada Guará-Cunha. Passamos (eu, Walter e Fábio) uma tarde memorável. Bebericando a saborosíssima limonada preparada por sua mãe, conversamos sobre literatura, trabalho, amizade, vida. A tarde foi arrematada por um café na cozinha aberta ao verde: pássaros e ruído refrescante de água  completaram o momento. Fábio contou que é advogado e funcionário público. Paralelamente, tece álbuns coloridos, onde mescla seus próprios textos com textos de autores consagrados, imagens, colagens, rabiscos, pinturas. Segredou-me o Walter: "o Fábio ainda não sabe, mas é um autor multimidiático". É verdade. Sua obra, embora intuitiva e simples, fala muito mais alto que ele imagina. Ainda vamos ouvir falar dela. E dele.
Logo mais, postarei um comentário que o Fábio, em "pagamento", escreveu sobre "Menina dos Olhos."


VOO NUPCIAL – Fábio Tibúrcio
Ninguém começa a fazer poesia
quando começa a escrever poesia.
O processo de formação começa
antes, muito antes,
sem a gente saber, inclusive.
“Tragédia brasileira”
“Porquinho da Índia”
e “Momento num café”
foram minhas primeiras
experiências poéticas.
Eu lia como quem voava,
enquanto alguma coisa era lançada
para dentro de mim.
Eu estava sendo fecundado
e não sabia de nada.
A literatura é esse ato sem nenhum
método de prevenção concepcional.
Ainda que homem, ela te faz voar.
Ainda que homem, ela te faz gerar.
Poeticamente falando, perdi minha
virgindade aos vinte anos.
Foi com o Manuel Bandeira.

                        Para Manuel Bandeira

“Gostei do poema. Simples e direto, mas eficiente na sugestão (para quem lê na entrelinhas). É um poema metalinguístico, é óbvio. Fala de si, do próprio fazer poético. Mais: fala do sentir poético. Já li em algum livro de Teoria Literária (às vezes a desprezo!) que existe uma diferença entre “poema” e “poesia”. O primeiro seria o sentimento, o olhar, a “fisgada” emotiva que nos leva a escrever. O texto escrito seria a poesia. O “seu” poema fala disso, sem, entretanto, (Fábio é sábio) distinguir tão fisiologicamente as etapas. Ainda faz questão de anunciar os nomes de alguns poemas que o polinizaram. Poemas curtos, rápidos, até. Inusitados, com finais criativos e inesperados. Como e dele próprio, “Voo Nupcial”. Talvez tenha acontecido com ele, ao ler o poema, o que acontece conosco quando nos defrontamos com um texto perfeito: a sensação de que ele já existia dentro de nós e que o outro conseguiu transformar em palavras. Mais ou menos como diz Milton Nascimento: “certas canções que ouço/cabem tão dentro de mim/que perguntar carece/como não fui eu que fiz.” Fábio ainda se sente “voar” ao ler os poemas, verbo muito bem empregado. Não é assim que nos sentimos, quando imersos na leitura? Voar, viajar e, atualmente, navegar, são verbos que remetem ao prazer da leitura, aos momentos em que conseguimos nos abstrair da realidade para um mergulho de corpo e alma nas palavras. E vamos ao querido Fernando Pessoa: “Navegar é preciso/viver não é preciso.” Muito interessante a coragem do moço em assumir sua feminilidade ao dizer que foi fecundado, numa atitude passiva que remete, tradicionalmente, à figura feminina. Que foi gerado. É como mulher pássaro que ele se assume, grávido de poesia. E ainda diz quem foi o pai: Manuel Bandeira. “A literatura é esse ato sem nenhum método de prevenção concepcional.” Ele expande, não se restringe à poesia, mas fala da literatura e a associa ao ato sexual, resultado de um processo de sedução, aqui entre o autor/texto e leitor. Em princípio, cede sem perceber. Depois, em plena consciência da gravidez que surgirá. E, alisando a barrigona, dá à luz, solteiro, inteiro, ao poema “Voo Nupcial”. Gostei.”
Eliana Maciel

domingo, 27 de março de 2011

Sobre cabelos, bóbis e amor

Quem me conhece sabe: gosto dos meus cabelos crespos. Em uma família de mulheres com cabelos lisos,um pouco de minha identidade se formou pelas ondas dos meus bastos cabelos. “Uma das filhas da Dona Dina...” “Qual das três?” “A de cabelos crespos.” Passei quase incólume pelos longos tempos de escovas, chapinhas e outros processos de alisamento. Na formatura do meu filho mais velho, resolvi “arrumar” o cabelo. Muitos minutos de secador... e o espelho me revelou a estranha imagem: uma mistura de mim mesma e de minhas irmãs. Pedi à cabeleireira as ondas de volta. Ela atacou de “babyliss” e o resultado foi interessante. Foi o máximo que fiz.
Temo estragar os finos fios de minha cabeleira no calor excessivo dos secadores possantes. Temo que se habituem (inclusive eu mesma) à minha imagem de cabelos lisos. Temo me tornar dependente de cremes, escovas e pranchas. Temo tornar meus cabelos como muitos: alheios ao rosto, moldura barroca em pintura abstrata.
Mas, numa dessas noites em que se quer ficar deslumbrante para um encontro com o Amado, não houve jeito. O cabelo feito uma juba... Lavagem, condicionador, hidratação caseira e nada! Sem tempo e disposição para enfrentar a cadeira de um salão, lembrei-me da velha touca. Corri ao espelho... resgatei uma caixa de grampos  e deixei meus dedos fazerem o serviço. Cabelo todo para um lado, o pente ajudando, os grampos segurando os fios. Mesmo sem ter feito touca antes, minhas mãos sabiam... Os movimentos dos dedos levaram-me para outro quarto, da casa antiga da minha avó... eu menina olhando minhas tias defronte ao espelho... os cabelos puxados, os grampos abertos nos dentes e inseridos paralelos, contornando a cabeça. Um lenço para cobrir tudo.
No meu quarto, segui o mesmo ritual e me surpreendi com a sabedoria das minhas femininas mãos. As mãos das mulheres sempre pentearam cabelos – os seus próprios e os de outras mulheres. Mães pentearam filhas, irmãs cortaram cabelos umas das outras (com resultados nem sempre satisfatórios), filhas ajeitaram cabelos de mães idosas, doentes, moribundas, mortas. Por detrás do gesto estético, sempre residiu a proximidade, o afago, o aconchego.
As mulheres hoje vão ao salão de beleza... Não se veem mais mulheres de lenços, bóbis, papelotes. Elas se arrumam entre  paredes e se revelam ao mundo completamente prontas. Perfeitas. (Coisa que ninguém, na verdade, é.) As mulheres da minha infância, que saíam para as ruas no melhor estilo Dona Florinda (sim, eu já assisti ao Chaves), também eram amadas. Seus homens pareciam não se importar ao vê-las no processo de se tornarem mais belas. Hoje, fazemos toda questão de somente revelar aos homens o resultado, o produto... Será que pode residir aí um pouco da falta de paciência para conviver com os defeitos do outro? Não sei.
Depois da touca, gostei do que vi no espelho: meus cabelos assentados, sedosos e ainda cacheados. O Amado, devo dizer, nem notou a diferença. Disse que eu estava linda, como sempre. E, no final da noite, dedicamo-nos a coisa mais interessante e importante  que pentear cabelos: dedicamo-nos a despenteá-los.

A Afilhada que clica

Alguém tem um/a afilhado/a? Eu tenho uma. Seu nome é, poeticamente, Luíza. Quando soube que seria sua madrinha, chorei feito criança. E procurei acompanhar sua vida. Creio que ela sabe o quanto eu a amo. E o quanto pode contar comigo, se precisar ou se só quiser. É uma mocinha feliz. Cabelos negros, muito lisos, olhos suaves, riso fácil, temperamento dócil, meiga. E amorosa. E talentosa. Está estudando no Rio de Janeiro e demonstra, ainda bem nova - 19 anos! - grande talento para a fotografia. Gosta de clicar sensivelmente paisagens, objetos e pessoas. Prefere as fotos analógicas às digitais. Prefere tecer artesanalmente cada foto, jogando luzes e sombras como tem vontade.
Abaixo, o clic de uma Luíza ainda bebê. E o link para suas ótimas fotos: www.flickr.com/luizajunqueira


Meu pai

Vinte e sete de março. Meu pai faria hoje oitenta e um anos. Posso até imaginar como ele estaria, se tivesse sobrevivido àquela cirurgia do coração e aos demais problemas de saúde que poderia ter enfrentado, entre os sessenta e sete anos e o dia de hoje. Seria ainda um velhinho altivo, bem-humorado, afetuoso. Imagino-o a olhar meus filhos crescerem, a se orgulhar de ter netos tão belos e saudáveis.Imagino-o a vibrar com as nossas conquistas, a passear comigo no meu carro novo, a enxugar-me uma lágrima, a contar tantas vezes as mesmas piadas. Imagino-o em sua poltrona, dando chutes no ar para ajudar os jogadores do São Paulo a marcar um gol. Imagino suas mãos envelhecidas, pintadas de tempo e de vida. Grandes e calorosas mãos que tanto me embalaram. Imagino que teria ainda disposição para a compra do bacalhau para o almoço do aniversário. E que estaríamos rindo e brindando mais um dia juntos. Imagino  o quanto teria se alegrado ao se ver tantas vezes retratado em meu livro. Imagino-o doce, belo e amigo. Obrigada, meu pai. Sei que vive em mim.

Eliana Maciel